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Nada de "bloquinho": para o recifense, há muitos tipos de blocos

Roberta Guimarães - 8.fev.2016/UOL
O bloco lírico Confete e Serpentina desfila pela ruas do Recife antigo Imagem: Roberta Guimarães - 8.fev.2016/UOL
do UOL

Mateus Araújo

Colaboração para o UOL, de São Paulo

10/02/2019 12h34

O paulistano já incorporou ao seu vocabulário afetivo e festivo a palavra "bloquinho". E, neste período de Carnaval, é o substantivo mais querido dos foliões -pouco importa se é festa pequena ou com multidão, se é na rua ou em espaço fechado, se é tradicional ou gourmet. Tem sempre alguém indo, marcando de ir, à procura de ou se jogando num... Bloquinho.

Essa nomenclatura, no entanto, é quase impensável no Carnaval recifense, um dos mais tradicionais carnavais de rua brasileiros, onde a classificação de agremiações é feita há mais de 80 anos. O genérico "bloquinho" não é usado na cidade que, oficialmente, tem dez tipos diferentes de manifestações populares carnavalescas -de bloco a caboclinhos, passando por maracatus e escolas de samba.

"No diminutivo, só se forem blocos infantis, como o Eu Acho É Pouquinho", frisa a pesquisadora Rita de Cássia Araújo, da Fundaj (Fundação Joaquim Nabuco).

No Recife, o trabalho de dar nome a cada tipo de manifestação popular começou em 1935, com a Federação Carnavalesca Pernambucana, como explica Araújo. A Federação era responsável por arrecadar verbas de patrocínio e distribuí-las aos carnavalescos e, por isso, passou a estabelecer regras para definir cada tipo de grupo. 

Os estilos de música, os formatos e tamanhos das orquestras e até os horários de apresentações foram levados em consideração entre os critérios de classificação, no passado. Até hoje essas nomenclaturas são usadas pela prefeitura da cidade para criar o concurso anual de agremiações, durante o Carnaval.

"Mas para os outros, cidadãos, foliões e folionas ou não, no entanto, essa divisão não faz mais tanto sentido ou não é seguida com rigidez. Muitos, talvez a maioria, desconhecem essas categorizações", diz Rita de Cássia Araújo.

Segundo ela, porém, no senso comum, embora sem saber bem a razão, os recifenses costumam fazer diferenciações mais simplificadas entre as agremiações.

Igo Bione - 19.fev.2012/JC Imagem
Maracatu Cabra Alada desfila na Rua do Bom Jesus, no Carnaval do Recife Imagem: Igo Bione - 19.fev.2012/JC Imagem

Com ajuda da pesquisadora, o UOL preparou uma lista com três dos principais tipos de agremiações do Carnaval pernambucano, como são chamadas hoje pelos foliões: 

Bloco
Na classificação oficial, bloco é uma agremiação de orquestras com instrumentos de pau e corda (como cavaquinhos, violão, banjo, flauta, clarinete, reco-reco), os chamados Blocos Líricos. O que é diferente de "clube", que se apresenta à noite, com orquestra de metais, formada por, no mínimo, 20 músicos; e de "troça", que sai pela manhã ou à tarde, com orquestra de menos de 20 músicos.

"Mas hoje, exceto pelos participantes das agremiações mais tradicionais, nas ruas e nas rodas de bar não se costuma fazer distinção entre clube e troça. Para a massa, todos são blocos. A gente diz: 'Hoje eu vou para um bloco', sem distinguir", diz a pesquisadora.

A diferença, porém, segundo ela, é feita pelo tipo de frevo tocado em cada festa: se é frevo de rua (só instrumental, ritmo acelerado) ou frevo de bloco (em marcha mais lenta, com coral). A classificação é seguida apenas pelas agremiações que participam do desfile oficial. As outras já não obedecem a esses critérios, como é o caso do de bloco que misturam frevo com samba, e outros que tocam outros ritmos como marchinhas cariocas, sambinha clássicos e axé. 

Maracatu 
Há dois tipos de maracatus: o nação e o rural. No maracatu nação, com batuque marcado pelas alfaias, o cortejo tem rei, rainha, príncipe e princesa, embaixador e as damas do paço -mulheres que carregam bonecas nas mãos, as calungas.

"Nos anos 1930 e 1940, período de grande perseguição oficial às religiões de matriz afrodescendente e afro-ameríndias, os maracatus nação foram muito utilizados pelos praticantes das religiões de matriz africana para acobertarem suas práticas e rituais", lembra Araújo.

Já no maracatu rural, com cadência mais rápida e orquestra, há a emblemática figura do caboclo de lança e uma ligação mais forte com a jurema sagrada, religião de origem indígena. 

Caboclinhos
"Formados por afrodescendentes que se vestem de tangas e cocar, representando índios", pontua a pesquisadora. No Carnaval, desfilam formando duas fileiras, rodopiando e abaixando-se veloz e agilmente, marcando os passos com a batida de um instrumento chamado preaca, um tipo de arco e flecha.

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