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Medo, bomba e xixi na porta: a volta do "carna terror" à Vila Madalena

do UOL

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

10/02/2019 22h09

O Carnaval da Vila Madalena voltou. Aparentemente, também naquilo que tem de pior: brigas entre foliões, confusão com a polícia, gente invadindo o quintal alheio para satisfazer as necessidades fisiológicas, moradores irados com as autoridades e prefeitura desesperada para mostrar serviço. 

Um pré-carnaval marcado pelo Facebook no estilo "rolezinho" levou cerca de 15 mil pessoas ao bairro da zona oeste de São Paulo neste sábado (9) e causou muita confusão. Nas redes sociais, moradores postaram vídeos das ruas totalmente tomadas por jovens e vendedores ambulantes, foliões urinando nos portões das casas e muito lixo espalhado pelas ruas. 

"Rua Aspicuelta agora, 17:25 de sábado, 9/2/19. Os guarda-sóis são barraquinhas de vendas... Todo mundo sabe do que. Polícia Militar, prefeitura regional foram avisados há cinco dias e não fizeram NADA pra evitar. Evento ilegal. Parabéns, prefeito Bruno Covas. Parabéns, Secretário da Cultura Alê Youssef: se queriam promover o CAOS, vocês conseguiram", dizia um post da página do Facebook "Campanha pelo Silêncio na Cidade de São Paulo". O comentário vinha acompanhado de uma foto da via abarrotada pelo público.

Uma das responsáveis pela página é moradora da Vila Madalena. Ela pede para não ter o nome revelado e conta que alertou todas as autoridades sobre o evento organizado pela página "Diário de um Maconheiro". "Eu avisei na segunda-feira da semana passada. Avisei a prefeitura, a CET e a Polícia Civil. Mandei e-mail e denunciei o evento ao Facebook, dizendo que ele não poderia ser veiculado por ser uma promoção do caos social. Ninguém fez nada."

A moradora acredita que o principal interesse por trás da realização de tais eventos é a venda de bebidas, e impedir que eles sejam promovidos pelas redes sociais resolveria o problema. "Há seis anos eu aviso, por e-mail, todas as autoridades de que o evento está publicado no Facebook e precisa ser interrompido. Nenhuma autoridade apaga a página, pune o responsável e evita o evento. Não aconteceu uma única vez de os convites serem interceptados."

A página do evento no Facebook teve 53 mil interessados. E, a despeito de todo o auê causado, já há um novo pré-Carnaval convocado para o próximo dia 16. Quem é o responsável por organizá-lo também não é segredo: Chris Briza. Ele aparece como organizador do evento e quase todos os entrevistados pela reportagem do UOL o apontaram como tal. Quase todos, porque os representantes da subprefeitura e da Guarda Civil Metropolitana se mostraram surpresos quando confrontados com a notícia de que tal nome era público e notório. 

O UOL tentou contato com Chris Briza, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. 

"Houve um burburinho de que hoje haveria um novo evento do tipo e viemos aqui para evitar problemas", explica um integrante da GCM. Ao lado do subprefeito de Pinheiros (zona oeste), João Grande, e de outros guardas municipais, ele monitorou a situação no bairro na tarde deste domingo (10). 

Ainda há algum lixo do dia anterior nas sarjetas e junto aos bueiros, mas pouco vestígio da balbúrdia do dia anterior. No cargo há apenas 15 dias, o subprefeito parece apressado em dar satisfações. "A prefeitura está trabalhando junto da GCM e da Polícia Militar para que todas as ações necessárias sejam tomadas, desde que sejamos avisados previamente. Caso contrário, fica difícil", diz Grande. 

Marcelo Justo/UOL
No dia seguinte ao pré-Carnaval ainda havia lixo nas ruas do bairro Imagem: Marcelo Justo/UOL
Barricadas de volta

O subprefeito explica que, ao menos durante os quatro dias de Carnaval, uma polêmica medida adotada no ano passado estará de volta: barreiras para controlar a entrada do público. Na prática, trata-se de uma espécie de barricadas para impedir que os foliões invadam a Vila Madalena. Funcionou em 2018, mas levantou a seguinte questão: como fica o direito de ir e vir das pessoas? Mesmo moradores do bairro tiveram que mostrar documentos para ultrapassar as barreiras.

"Sim, concordo que este é um ponto importante. Neste caso, porém, a questão da segurança pública se impõe sobre o direito de ir e vir", argumenta o subprefeito. "Mas estamos conversando com a CET para realiza um cadastro dos moradores e, desta vez, o acesso ao bairro ficará mais fácil."

A Vila Madalena só se transformou nesta espécie de "fortaleza" no ano passado porque seus moradores recorreram ao Ministério Público. É exatamente o que eles pretendem fazer agora. "Vamos pegar as imagens do que aconteceu no sábado para mostrar ao Ministério Público estadual que ainda temos um problema no bairro", diz Cassio Calazans, presidente da Savima (Sociedade Amigos de Vila Madalena). 

A colocação dos tais bloqueios constitui a formação de uma ZAE (Zona de Atenção Especial). Calazans, entretanto, admite que esta não é a solução ideal para a questão. "O certo é não ter ZAE e, sim, fiscalização e policiamento. Porque aí o comércio consegue vender, o morador consegue chegar e sair do bairro. Organização e bom senso que não existem."

Morador de uma casa na rua Girassol desde 1970, Rubens Bianchinni viu pelo menos cinco pessoas entrarem na residência para urinarem no quintal. "Alguns abriram o portãozinho. Outros pularam mesmo. Estava dentro de casa e ouvi eles brincando sobre fazer meu quintal de banheiro", conta o senhor. "Aí, já saí com uma pá na mão para expulsá-los. Mas chegaram a urinar, tive que limpar para não ficar o cheiro. Todo Carnaval é assim."

Marcelo Justo/UOL
Rubens Bianchinni viu pelo menos cinco pessoas entrarem em sua residência para urinarem no quintal Imagem: Marcelo Justo/UOL

Sentado do lado de fora do bar Quitandinha, Flavio Pires está exaltado. Tão exaltado que é de se imaginar o que aconteceria se o subprefeito, que está logo ali ao lado, atravessasse a rua. Dificilmente uma discussão sobre políticas públicas se daria em um tom amistoso.

"Aconteceu o que já era previsto: descaso e despreparo dos governantes. Esse evento já ocorre há quatro anos e todos os órgãos competentes sabem quem é o autor. Eu mesmo já fui atrás dele, já denunciei, mandei para o Ministério Público. E não tomaram providência nenhuma", diz o morador e comerciante do bairro. 

"Desde que esse Juca Ferreira [ex-secretário municipal da cultura] veio com o Haddad para fazer esse Carnaval de São Paulo, estamos carregando esse peso. Mudou o partido e a coisa não mudou. A Vila Madalena foi a cobaia. Eu participei da reunião e falei que o bairro não tinha condições para receber um evento público para 40 mil pessoas. Não tem banheiro químico, não tem vigilância, não tem policiamento, não tem fiscalização, não tem nada", diz Pires.

"Cadê o Bruno Covas? Traz o prefeito para conversar com a gente. Hoje eles vêm aqui porque não tem ninguém. Eles conversam com o velhinho que tá na padaria tomando café, assustado. Chama o subprefeito para falar com a gente, que é da linha de frente", encerra.

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