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Intérprete que trocou Carnaval do Rio pelo de SP ouviu: "Está maluco?"

Rafael Arantes/Divulgação
Igor Sorriso, cantor da Mocidade Alegre Imagem: Rafael Arantes/Divulgação
do UOL

Daniel Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

24/01/2019 04h00

Quando o cantor Igor Sorriso vai ao Rio de Janeiro e é reconhecido pelos fãs, eles pedem para tirar fotos e perguntam para que escola de samba ele está trabalhando. Quando conta que está em São Paulo, na Mocidade Alegre (veja a programação dos desfiles do Grupo Especial), muitas vezes lhe respondem com palavras de consolo. "Eles dizem: ´Fica tranquilo, vai aparecer alguma coisa para você", conta Sorriso, divertindo-se com o relato.

Ele mudou no ano passado para a capital paulista por vontade própria. Acontece que é tão raro uma figura da elite do Carnaval carioca trocá-lo por São Paulo que muita gente ainda trata o fato quase como algo absurdo. 

É comum que profissionais da folia trabalhem nas duas cidades ao mesmo tempo. Sorriso estava nesse bate e volta pelo menos desde 2012. No Rio, cantou pela São Clemente e pela Unidos de Vila Isabel. Em São Paulo, pela Acadêmicos do Tucuruvi e pela própria Mocidade. No ano passado, porém, decidiu fazer as malas e partir em definitivo à outra ponta da rodovia Presidente Dutra. 

"Eu sempre gostei muito da cidade de São Paulo. E tive um envolvimento muito forte com a Mocidade Alegre. Me identifiquei com o funcionamento da escola, sempre conseguimos fazer trabalhos de muita qualidade", diz o intérprete. Dividindo-se entre as duas metrópoles, Sorriso cantou pela Mocidade em 2014, 2015 e 2016. Pé-quente, era o intérprete oficial no último título da escola paulistana, em 2014. 

Aos laços afetivos já construídos com a capital paulista, somaram-se questões práticas. "Cheguei a um ponto da carreira em que eu precisava de mais motivação. E motivação é o que sempre encontrei, e muito, na Mocidade", diz Sorriso. "Entrou também a questão do mercado de trabalho. Minha mulher [formada em engenharia] estava desempregada e aqui as opções eram bem mais amplas."

A insegurança no Rio de Janeiro também pesou na decisão. Sorriso não entra em detalhes, mas deixa claro que a violência já chegou bem perto dele e da família. Decisão tomada, o intérprete a comunicou à Vila Isabel e seguiu para São Paulo com a mulher, Érica, e os filhos, Inácio, 4 anos, e Isaac, 2 anos, para morar no bairro do Limão (zona norte).

Rafael Arantes/Divulgação
Sorriso já canta na escola de São Paulo há anos e agora decidiu abrir mão de trabalhar no Rio Imagem: Rafael Arantes/Divulgação
O intérprete toma cuidado também ao falar de algumas questões mais específicas. Mas não esconde sua insatisfação com situações que ele via e não gostava no Carnaval do Rio de Janeiro. "Na Mocidade, me agrada muito ver o trabalho em grupo em prol da escola, do sucesso da agremiação. Não há vaidade pessoal ou ego à frente dos compromissos", diz o intérprete, antes de admitir que enfrentou esses problemas em sua cidade natal. 

"Como assim, você está maluco? Vai abandonar o Rio, vai para São Paulo?", escutou Sorriso de companheiros de Carnaval quando contou sobre sua decisão. O espanto não é bairrismo puro e simples. Bem mais rico e midiático que o paulistano, o evento carioca, a princípio, não é algo que se queira "abandonar". 

"Para alguém que trabalha com Carnaval, sem dúvida a exposição na mídia ainda é muito maior se você estiver em uma escola do Rio. Acontece que aqui em São Paulo tem um mercado muito maior de eventos para eu participar. Ou seja, mesmo que eu apareça menos, acaba compensando financeiramente", explica o intérprete.

Já versado o suficiente nas particularidades de cada cidade, Sorriso reflete sobre suas diferenças. "Não sei se isso é melhor ou pior, mas, no Rio de Janeiro, praticamente todo o mundo se envolve. Você chega ao aeroporto ou à rodoviária e o taxista já fala sobre o primo dele que era da escola tal. Em São Paulo, acho que ainda há uma resistência maior. Só quem realmente gosta vai às escolas de samba. Muita gente não acompanha, não sabe os nomes das escolas, o que não acontece no Rio."

O intérprete acredita que, apesar de decisões como a dele ainda causarem estranheza no Rio, a evolução do Carnaval paulistano tem sido acompanhada e valorizada pelas escolas cariocas há pelo menos uma década. "Hoje, por exemplo, um intérprete de São Paulo também pode facilmente ser chamado para trabalhar no Rio. Isso aconteceu com um amigo, inclusive. Há muitos cantores bons aqui, e acho que essa troca será cada vez mais natural."

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